terça-feira, 14 de junho de 2011

Ator - O Poeta da Ação

A Poética da Voz tem como enfoque a idéia de transformar a voz cotidiana, superando-a, fazendo com que a musicalidade da voz seja também produtora de sentidos.

Tal poética vocal não é estritamente técnica. Está mais ligada aos processos criativos, e depende da coesão entre a organicidade e a técnica. Falar é um gesto, uma vibração do corpo, que parte de um desejo com um determinado objetivo. A Voz é é também uma ação física, um gesto do corpo, e deve estar em harmonia com o restante deste corpo, trabalhando sinergicamente.

O bom músico afina diariamente seu instrumento musical e o manipula, buscando ainda mais a precisão na hora de executar sua arte, e assim o ator deve fazer com o seu corpo. “Afinar” o corpo e a voz não é simplesmente fazer exercício físico, aquecimento vocal ou cantarolar notas musicais, mas explorar corpo e voz em sua totalidade, compreendendo os seus limites, suas potencialidades... E a partir daí criar uma música corpórea, sonora, preenchida de silêncio, sentimento e significados.

Para Burnier (2001) " o ator é o poeta da ação". E a Poesia é uma ação extra-cotidiana, como toda a forma de Arte.  Mas que é uma ação "Extra-Cotidiana". Por exemplo: Os que podem andar fazem isto sem nenhum esforço psicológico, e na maioria das vezes, sem muito esforço físico. Quando alguém diz para uma outra pessoa para esta andar para que ele possa ver, esta pessoa que antes andava com "naturalidade" passa a ter dificuldades de realizar uma ação totalmente cotidiana. Por que isto acontece? Oras, porque a representação é uma ação "Extra-Cotidiana", da qual a maioria das pessoas não possui Consciência das próprias ações cotidianas, e por isto não saberão representa-las. Daí a importância da Consciência de si e das possibilidades do seu instrumento de trabalho: O Corpo. 

Esta afinação se dá através da consciência e de si e do outro. E é através desta afinação de nosso instrumento de trabalho - o corpo - que podemos executar ações extra-cotidianas, nos deixando em estado de alerta e prontidão cênica.

Este Colorido vocal é busca de uma voz que fuja da cotidianidade, do senso comum, da monocordia, como fosse uma música de uma nota só ou sem vida. Esta poesia, que transcende o estado comum, é simplesmente uma exemplificação de uma ação Extra-cotidiana, que se faz presente na presença cênica, na respiração, no corpo e na voz.

A desmontagem do corpo cotidiano significa, no limite, tornar acessível a experiência da "não-forma", do silêncio. O corpo informe se mantém no fluxo contínuo de sensações, afetos e percepções que aparecem e se dissolvem incessantemente, sem querer agarrá-las ou rejeitá-las.

Para adquirir esta Consciência, é necessário um exercício de auto-observação, da escuta e da observação da realidade a sua volta. Afinal de contas, o Teatro é a mimese da realidade, seja apenas como simples representação, seja para subverter o sentido do que é realidade, pois mesmo para subverter, precisamos conhecer o que é real. Assim, o Ator é o observador/ouvinte de si mesmo e da realidade. E a consciência técnica deste corpo e desta voz que irá representar será adquirida através de treinamentos freqüentes para a descoberta deste "corpo em si", para transformá-lo em uma "massa de  modelar", que poderá se transmutar em vários corpos. No caso da voz, as mútliplas sonoridades e musicalidades poderão ser desenvolvidas.

Além disto, a presença cênica, a ação física e a prontidão dão ao ator a consciência e a técnica necessária (a partir do conhecimento prático e teórico das sonoridades e seus parâmetros do corpo e suas qualidades de movimento) para realizar o seu trabalho com qualidade e verdade cênica.

A voz é um gesto do corpo, gesto físico, pois atinge tanto tátilmente quanto auditivamente. A onda mecânica toca o corpo, a palavra e o som captado pelos ouvidos está carregado de imagens, signos e sentimentos. E tudo isto só acontece se o ator, através da técnica e da organicidade, estiver em estado de presença cênica e prontidão. 

Tenho assistido a alguns espetáculos em Goiânia, e os erros recorrem sempre no fato de "faltarem com a verdade", com a fé cênica, de buscarem a estética pela estética, e a forma pela forma. Buscam projeções, entonações e impostações falsas, sem nuances, sem compreensão dos parâmetros do som, organicidade e ainda com problemas de dicção.

A arte do ator, do intérprete cênico, é dar vida ao pensamento do autor. Interpretar, é compreender a fundo o sentido do que se está fazendo, é tornar orgânico, transmitir o texto ao espectador como se fosse pensado por si, sem necessitar falsetes, ou timbres completamente distantes. Atuar compreende uma função de agente da fala, poeta da ação, e como artista, dizer uma verdade que afeta o espectador, que mude o sentido de vida de cada um que participa do jogo da encenação.

Não há silêncio absoluto, há intervalos. Intervalos entre o pensamento e a ação, sempre preenchidos por uma pulsação ou respiração, pois tudo que é vivo respira e pulsa, toda a matéria vibra, e a vibração emite sons. Há o ar, o sopro. O silêncio é um gesto, é ouvir, escutar, pois antes da fala, vem o pensamento, vem a ação do outro, que desencadeia uma reação, que por sua vez gera outra ação, numa constante cíclica, que move o mundo, e no Teatro este mundo, subvertido, invertido, transmutado se configura como uma realidade única aos olhos do observador, atento, buscando todos os detalhes, e participando ativamente, em "silêncio" preenchido de emoções.

Compreender o silêncio não como um vazio ou pausa, mas como elemento do som, perceber o som como elemento a se manipular, preenchido de ação, emoção e nunca vazio e estático. Teatro é ação. E tudo o que se faz no palco é passível de significado e sentido, e deve estar preenchido pela verdade. Eis o que é um trabalho do ator, que é sempre compositor e agente transformador, ressignificante, e canal de ligação entre autor e diretor com a platéia.

Falar até papagaio consegue, imitar gestos um macaco pode fazer. Mas criar é algo estritamente humano, verdadeiro, e parte de um desejo. Afinal, por que somos atores?

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ação Física Vocal

A Arte do ator, ao contrário do que muitos leigos pensam, é antes de mais nada, a arte da observação, da escuta. Segundo Valère Novarina (2009, p.21) “a fala nos foi dada não para falar, mas para ouvir”. Partindo deste príncipio o ator exercita o ato da escuta, e através dela a fala. O ator deve-se atentar ao texto dramático, na busca de entende-lo, de perceber as imagens, o pensamento do autor, para no palco ser o “porta-voz” deste pensamento, desta ideia, deste desejo de falar ou exprimir o pensamento. Além disto, o ator não é apenas um “emissor das palavras do autor”, mas também um agente criativo que criará suas próprias imagens sobre o Texto.

Falar é um gesto, uma vibração do corpo, que parte de um desejo com um determinado objetivo. Assim, poderíamos definir a voz também como uma ação física, que tem o poder de tocar e sensibilizar o outro, seja ele o espectador ou até mesmo um parceiro de cena. A voz, além da criação de imagens, é em si, através das sonoridades uma ação por si só, que independe do significado da palavra, mas que aliado a mesma tem o poder de multiplicar os signos e de extrapolar o inteligível, mas tocar no sentimento, no sensível.

Para desenvolver esta ação, o ator deve experimentar as diversas possibilidades em seu corpo, no intuito de perceber e tornar orgânico este processo e ultrapassar a simples hermenêutica do texto. Para Fernando Aleixo (2007, p.39) pode-se trabalhar esta ação física vocal a partir de “três dimensões fundamentais sendo: sensível, dinâmica e poética”.

Assim, para o ator ser o canal de conexão, o agente que liga o texto ao público, é necessário que perceba as sonoridades que as palavras possuem, desde o entendimento dos sons das letras até a construção do sentido de uma frase, buscando afetar-se e afetar o outro. Inclusive entender que o dramaturgo ou autor muitas vezes escolhe determinadas palavras pela sonoridade que possuem, a fim de impactar não apenas pelo signo em si, mas também pela forma auditiva.

Vale ressaltar que a ação física vocal, também se manifesta através do silêncio, da respiração vazia de sons mas preenchida de emoções e ação. É a muito conhecida “pausa dramática”, que como a própria expressão diz, é o silêncio que comunica e afeta o outro, que permite ao ator e espectador ouvirem a respiração do outro, a perceberem o desejo de manifestar o pensamento e sentir emoção. Além disto o silêncio permite a cadência da fala, a variação rítmica. O silêncio em si não existe, o que existe é uma transição entre falas, preenchidas de ruídos de ar, pulsação interior e desejo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Linguagem, Técnica e Voz

Falar de voz, técnica e linguagem isoladamente, sobre cada um destes tópicos já é por si só uma tarefa difícil e que renderiam grandes discussões sobre os temas. Falar sobre as três então..

Primeiro, devemos entender necessariamente do que se trata cada coisa. Quando falamos de Voz, estamos falando especificamente da capacidade humana de comunicar-se verbalmente por meio da fala, o que já nos remete quase que automaticamente ao conceito de linguagem.

A Linguagem por sua vez, é o tópico mais abrangente e contraditório desta discussão. Pois se considerarmos que a linguagem serve-se para comunicar, existem diversas linguagens, e é justamente as características específicas que compõem cada tipo de de linguagem. Daí, falar de linguagem, seria também enumerar os tipos de linguagem.

Consideremos que a linguagem aqui discutida é a linguagem artística, mais especificamente a linguagem teatral; isto é, se considerarmos que a arte é linguagem, e que o Teatro também é linguagem. Sendo assim, como qualquer outra forma de linguagem, o Teatro possui códigos e signos pré-estabelecidos entre os comunicadores (emissor e receptor), que facilitam a comunicação.

Porém a arte, diferente da linguagem normalmente usada no dia, que pretende comunicar de maneira mais clara e direta, se utiliza de funções diferentes, buscando outros meios de linguagem, através dos sentidos e das emoções, por exemplo.

É neste contexto que podemos inserir a noção de Técnica. Primeiramente, a palavra técnica surge com o significado de Arte (a tradução do grego techné é arte). A técnica é um conjunto de procedimentos que tem objetivo um determinado resultado.

Como a técnica não exclui a criatividade, muito pelo contrário, ela vem com um fator que contribui, a técnica no Teatro tem o intuito de facilitar a comunicação entre ator e espectador, fazendo com que o artista cênico, com domínio da técnica possa criar, através da sua voz e corpo, imagens e despertar em quem assiste sensações e sentimentos.

Assim a técnica na linguagem teatral é um agente catalisador desta comunicação, sendo um meio de conseguir comunicar ao espectador de forma mais objetiva e íntima. Na Voz, esta técnica, permite ao ator desenvolver vocalidades diversas, sons e entonações distintas, que fará com que este mesmo ator tenha um leque de possibilidades de criação, e que sua execução seja a mais próxima do ideal, no sentido da linguagem, que é comunicar. No caso da linguagem artística, comunicar direto com os sentidos, com os sentimentos.